E teve um tempo que eu era
apaixonada por uma foto. De um violinista famoso, que me fazia suspirar com
seus lindos cachos e olhar compenetrado na musica. Suave, forte, ah, que teor romântico
que nada. Tinha mesmo era tesão, desse tipo incontrolável.
Ensaiei o básico em italiano: ti
amo, ho fame, ho sete, ho sonno, ho fretta, ho paura, ho mal di dente... tinha
que ter assunto com ele. E tinha que ser um assunto romântico.
Se bem que com pessoas do meu mesmo
idioma não tenho muito sucesso nos diálogos. E até acredito que sei o português
fluentemente (pelo menos acredito). O raio é a personalidade que colocamos na
fala, o tanto de si que cada letra leva e o quanto de nós ela consegue de fato
entregar. A cumplicidade do olhar escondido, do medo estampado, do grito
falido.
Quero beijos intermináveis. Não sei
se quero sexo a três, apesar da insistente propagação do ato pelo Dr Ray. É uma
proposta que alguns jamais negariam e eu só não quero negar de imediato porque
a gente não sabe o dia de amanha. Mas não tenho esses planos. Quer saber? Desisti
do beijo interminável.
Deve ser muito chato, imagine: “amor-
afastga a ling-gu-gua q-gue eu q-guero begber ag-gua”. Não, muito, muito
estranho. Então tá, não sei o que eu quero, porque nessa escrita e nesse português-quase-fluente
tudo vai me parecer extremamente absurdo e eu não vou me satisfazer com nada ou
quase nada do que me for ofertado ou desejado. Estranho né?
Lembrei de um piriquito. Eu ganhei
um piriquito verde quando era criança, e dei à ele o nome de Tico, porque já
tinha outro passarinho que chamara de Teco. Pois bem, passei semanas desejando
o pássaro, e chorava, e dizia que o Teco precisava de uma companhia “passarídica”.
Ocorre que o Teco não queria a companhia do Tico, então fiquei com dois pássaros
e nenhuma interação. Nesse meio tempo, descobri que tinha medo do escuro.
E como tinha medo, me arrepiava
horrores! Qualquer barulho, fagulha ou pena caída era motivo para um desespero incontrolável.
E com o medo do escuro e o Tico, e
como meu desejo mudara e eu já não queria mais o pássaro, mas me proteger do
escuro...
Como tudo isso aconteceu, me pareceu
natural trocar o Tico por um abajur.
Ganhei o abajur, que queimou em um mês.
O Tico mudou de nome, mas definhou (já estava acostumado comigo) e também não durou
muito mais que um mês.
De repente, hoje percebo como nosso
querer cria e destrói mundos inteiros.