segunda-feira, 16 de julho de 2012

Esboço n.º 2.


Capitulo II – o tempo não é linear.

Não há como delimitar o tempo. Relogios, tique-taques, segundos, horas. Horas que parecem segundos, segundos que sempre retornam à mente, minutos intermináveis. Não, o tempo não é linear. Estava pensando em segundas-feiras chuvosas, e eis que surge uma assim, maravilhosamente terrível.
Pessoas apressadas, pensando em afazeres, compromissos e relógios. Tempo. Correria. Relatividade.
Somos escravos de um tempo que não nos pertence, que gastamos procurando ter mais tempo e no final das contas, não nos sobra sequer tempo para reflexão. As pessoas que imaginamos que tem algum tempo não o tem suficiente, e às vezes quem não tem tempo o tem de sobra. É completamente não lógico, e nem um pouco linear.
Escolhemos dedicar nossas vidas a linhas do tempo, escrevendo o que estamos pensando, às vezes o que estamos fazendo e outras vezes até mesmo onde estamos. Nos cercamos de aparatos tecnológicos que nos distanciam, observamos à distancia aquilo que podia ser vivido intensamente porque afastamos nossos sentidos do sentimento.
Estamos aqui, ligados, trocando pensamentos profundos, mas nos negamos ao toque. Nos embebemos de imagens, não de cheiros. Pensamos que vivemos e vegetamos em frente à telas que às vezes cabem na palma de nossas mãos.
E nos iludimos pensando que somos ativistas, pensadores e amantes.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Esboço nº 1.


Epilogo
Tudo pronto para escrever uma historia de amor. Mas já passava das duas horas da manha, e o telefone não ia tocar. O silencio da noite cortava a alma como uma navalha.
 
Capitulo I – Linguagem e sinais.
 
Tudo era novidade. Ou não. Não tinha ainda o uniforme escolar, o que a obrigava a usar uma horrorosa calça azul com listras brancas laterais. Não fosse o bastante, eram alguns números acima do que usava, obrigando-a dobrar a barra. Tinha que durar alguns anos. Um dia antes, saira para o ritual que mais apreciava: ia comprar material escolar. Mas não qualquer material, era uma caixa de lápis de cor, a única coisa que seu pai lhe dava antes das aulas. O restante corria por conta da mãe e das diversas profissões que ela exercia: faxineira, costureira, arrumadeira, cabeleireira. Cadernos, livros, roupa, transporte, todo o resto. Mas os lápis de cor eram o máximo: podia escolher um estojo de 24 cores. E tinham um cheiro doce tão bom que dava vontade de comer.
Então, lá estava ela, lápis de cor na mochila, calça horrorosa, cabelos diligentemente presos e uma ansiedade de dar dor de barriga. Gente pra lá e pra cá e finalmente o sinal. Entrou na sala. Como não conhecia ninguém, sentou-se na frente. Os grossos aros do óculos a impediam de olhar os próprios pés. Estava suando. Era a primeira da lista de chamada.
Continua a primeira da chamada até a faculdade, o que lhe causa alguns transtornos. Antes, no fundamental, respondia presente com alegria. Hoje, é com pressa. Pressa pra poder ir embora depois da chamada, pressa pra voltar a dormir e babar sobre a carteira, pressa pra entregar logo a prova e ir embora. Não tinha mais lápis de cor, mas tinha uma caneta bic enrolada no cabelo. Agora que o cortara nem caneta tinha mais. Continuava com calças horrorosas e óculos de aros grossos. Um conceito bem claro: o óculos serve pra ficar com cara de inteligente, não bonita. Enquanto algumas garotas se ocupavam em comprar a ultima armação da Chanel, ela ia sem pressa às lojinhas dos coreanos da 25 de março e comprava a armação mais em conta e menos enfeitada. Da ultima vez, tinha passado quase um ano sem óculos porque perdeu não sabe onde (se perde, não tem que saber onde mesmo!), mas conseguiu comprar um quase igual àquele que tinha na segunda série, por uma única diferença: este era preto. O original, ou o primeiro, era vinho.
Na noite anterior se pegou pensando que todos vivemos um filme. E que esse filme pode ser de qualquer gênero. Se pudesse escolher um para sua vida, escolheria melosas comédias românticas em que o "felizes para sempre" fosse totalmente explicito e inequívoco. Mas a realidade tem muito mais nuances e nenhum fim, mesmo quando acaba para alguém, para outrem continua e o filme não para de ser rodado. Eram mais de duas horas da manha. Sentada sem conseguir dormir, imaginava a cadeia de situações que nos levam a um dado momento e o porque de nos encontrarmos em cenas tão distintas. Imaginou, olhando para uma rua com cheiro de asfalto, um casal de mãos dadas eternamente, envelhecendo, caminhando juntos. E olhou as próprias mãos, vazias, sentiu o peito apertar e foi dormir para viver mais um capitulo da historia de seu não romance.
 
 
(agora cansada de escrever, te mando esse esboço do esboço do esboço)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Inverno.


Sempre estou meio dopada. Dopada de mim, das pessoas e do frio que vez ou outra faz nessa cidade. Não é só um frio térmico, é uma coisa que esfria de dentro pra fora e nos torna senhores do gelo. Esquecemos do bom dia, como vai e de dialogar com as pessoas. É fácil se encerrar em si mesmo e esquecer de que outros fazem o mesmo ou ainda que outros estão abertos para uma recepção calorosa. Mas as pessoas da segunda classe são raras. Geralmente encontramos portas fechadas e corações vazios, quase secos. Também pode ser uma condição sazonal: tem dias que acordamos com o verão no coração, outras vezes com o inverno. E tem gente que vive um eterno verão, como se no seu peito a latitude e longitude indicasse uma dessas praias retratadas em filmes nas quais nunca chove.

Tem dias que me sinto no verão. Hoje sou inverno.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Gosto de romance

Piso nas poças d'água e sonho colorido
Depois amanso um cachorro perdido
Prego peça nos amigos
Curo ferida de arrependidos
Faço terapia com os desvalidos
Destroço dentadura de mordidos
Crio para mim um vampiro
E uns dois ou tres inimigos
Tenho medos desmedidos
Mas contra eles sou destemido!
Enfrento feras, dragões e caroços cuspidos
De vez em quando finjo que fui redimido
Eu fico de fato comovido
Se o choro for dolorido
Dou croque em menino intrometido
Grito junto com o oprimido
Se é pra dizer que estou ferido
Digo que foi um tapa merecido
Se disser que amei e me achar dolorido
Não me julgues por favor!
Só me salva do suicídio!
Não ficas comovido
Tudo isso é passageiro
Na vida estou decidido.





sexta-feira, 6 de julho de 2012

Deve ter algo bom no meio do escuro.


Tateando pelo escuro, procurava algo em que se apoiar. Tudo o que encontrara à sua volta lhe parecia liso como musgo, escorregadio. Mas tinha firmeza nos pés.
As ultimas noticias lhe agradaram. Tratavam de tempo bom, sol entre nuvens, pelo menos. Então deveria ser algo bom. Mas tinha uma nuvem, uma mancha que não tardava em aproximar-se que obscurecia (ou tentava) algumas boas noticias.
Manchas escuras como petróleo, frias e secas, como uma noite no deserto. Percebia vermes que vez ou outra tentavam alimentar-se de sua carne viva, e também percebia vez ou outra que o ânimo para manter-se sobre seus pés lhe faltava. Sentia vozes lhe chamando, mãos que lhe puxavam, mas como se tragada por um buraco, sentia as pernas desfalecendo.
Tão longe e tão perto, tantas pessoas ao seu redor e nenhuma ao mesmo tempo. Envolvida em sua própria solidão, tecendo teias com suas lagrimas, sangrando o peito sem sangrar, vertendo a dor de amar e odiar.
Deve ter alguma coisa boa no escuro. Deve ter um feixe de luz, ou um cheiro de flor, uma solidão necessária. Uma dor agradável, um sorriso triste, uma lagrima descompassada. Só dá pra pensar em carne sendo rasgada, em peitos dilacerados e caminhos destroçados. Em espinhos, cacos de vidro e pregos enferrujados.
E meio que esperando uma surpresa imagina uma flor de seda no meio do pântano. E meio que desistindo dela quase que a encontra, quando se dá conta de que não tem forças para trazê-la junto a si.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Três passos para o desamor.


Uno.
Lembrei-me do calor do seu abraço. Acendi mais um cigarro e desenhei a ponta do desejo com os dedos.
Você, seu cheiro, teu corpo. Pensei em outros corpos, acendi outro cigarro. Tomei dez mil litros de café sem me preocupar com o exagero do termo. Esperei teu corpo procurando teu cheiro em outros braços. Muitos deles, me envolvendo ao mesmo tempo.
Desfiz-me na fantasia que carreguei de ti e de outros corpos. Deixei-me levar numa paisagem, numa pintura sacra do que achava que sentia quando estava ao teu lado. Andei algumas quadras, à noite, a vontade de te ver me consumia. Olhava outros corpos na penumbra da noite e imaginava teus olhos em meu ombro, teus braços sobre minha cintura, a violência do teu toque e o apetite lascivo da tua penetração.
Pensei que fosse um sonho, mais parecia um pesadelo. Quanto mais te sentia, menos te via e menos te desejava. E no final, te queria mais, uma equação que não batia.
Desisti do café, pensei em uma cerveja, pensei em uma taça de vinho. Vinho barato, desses de dois reais o copo. Pensei em quantas bocas tocaram aquela borda, beijei como se a tua língua tivesse o tom rubro do vinho e o sabor azedo da embriaguez.
Pensei de novo no teu corpo, no teu cheiro e no teu toque. E o pesadelo voltou.
Você estava ali, parado, em pé à minha frente. Outros corpos te tocavam e eu implorava para que um beliscão me acordasse desse inferno. Vi teus braços em outras cinturas, tua boca em outra boca, teu gosto saciando outras sedes. Vi o deserto da minha alma se expandir, meu coração explodindo, pulando na garganta como se tivesse mais força que minhas pernas para fugir.
Procurei outros braços para me envolver, em vão. Pensei no que queria não pensar, pensei em vida e pensei em quase vida. Pensei em outros sonhos que não se desfaziam na falta da vontade, pensei em orgias e pensei em musas. Quis ser um quase nada, desejei a vida de uma ameba, invejei a ausência de sentimento peculiar dos vermes.
Senti-me um verme. Nu entre tantos outros vermes, roçando minha pele em outros seres sem qualquer emoção que impelisse a algo de mais valor, um quê de saudade me bateu em cheio e acendi outro cigarro.
Olhei de novo, teus braços em outro corpo, teu néctar em outra boca. Assim, imóvel, fazendo dos muros da cidade suja minha muleta, desejei não estar ali. Mas estando ali, desejei ser um pesadelo.
E implorei para que você viesse a mim e me acordasse com um gole de café.
 
Dos.
Amanheci com uma dor de cabeça do caralho. Queria gritar teu nome aos quatro ventos, queria pensar somente em mim, em mais nada. Um perfume novo, um corte diferente, qualquer frivolidade que me livrasse do pensamento em você por mais de cinco minutos. E depois por mais cinco minutos, até completar as malditas vinte e quatro horas do dia.
E voltou o gosto do vinho barato, o gosto das bocas na borda do copo, e o gosto da tua boca com outras salivas. Teu cheiro não me saia da mente e tua mente era minha prisão. Nem lembrei direito do que me aconteceu antes, me lembrava só de você, e você não era um, era dois.
Não quero mais fumar essa porra de cigarro. Essa merda me deu dor de cabeça. Você me deu dor de cabeça. Estou de ressaca.
 
Tres. Punto e basta.
Quatro dias, quatro longos dias se passaram. Outros cheiros povoavam minhas lembranças. Cheiro de algodão doce, biscoitos de chocolate e vomito. Isso mesmo. Vomito.
Tudo correu muito mais ou menos. Os dias passaram em tons cinza, sombrios, até aquela manha. Nenhum cigarro desde então, alguns goles de café e nenhum vinho. Não era uma ressaca alcoólica, era uma ressaca de amor, ou seja, lá o que fosse esse sentimento. Paixão, atração, qualquer coisa. Desisti de dar nome ao sentimento, já pra não me apegar a ele. Tenho pra mim que tudo o que damos nome acaba se tornando difícil de largar. A merda é que eu já tinha meio que dado um nome pra isso.
Campainha.
- Quem é?
- Eu preciso falar com você.
Nem acreditava. Agora que tudo se tornava um fantasma do natal passado esse bostinha aparecia.
- O que você quer?
- Eu preciso dizer que te amo.
Silencio. Intermináveis segundos sem que sequer uma palavra se passasse por minha mente ou boca. Na verdade, uns trezentos e sessenta segundos.
E comecei a pensar no que é o amor. Essa coisa que povoa os pensamentos mundanos e sagrados de todas as pessoas, de forma mais ou menos intensa. Desejei a sensibilidade de um psicopata, o amor de um facínora. Permaneci imóvel sem uma palavra.
- Abre a porta pra mim. Abre a porta do seu coração pra mim.
Lembrei de como te guardava lá. Não você, só seu cheiro. E lembrei-me de outros corpos, outros cheiros e braços. De como teu cheiro era mais agradável que qualquer flor de café. E como era fácil se deixar levar por ele, de como era fácil te guardar aqui, comigo.
Depois me coloquei nos muros, lembrei-me da cidade suja que me acolheu no meu pesadelo de dias passados, de como eu não queria você perto de mim, de como eu te queria dentro de mim.
- Vai à merda companheiro. Neste exato momento, prefiro uma trepada com os muros.
E desliguei o interfone, me desligando do mundo do desejo por ti.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Musicas novas.


Estou à procura de musicas novas e que não me façam pensar. De sabores apimentados e açucarados,  de cores fortes e vivas e perfumes, por que não, enjoativos ao extremo.
Comprei óleo de alecrim e hortelã, usei em todo meu corpo. Passei em cada centímetro de pele, me preparei para receber o néctar de um amor que não conheci, que pode durar uma vida ou uma noite. Quem sabe.
Me deitei em lençóis de chita sonhando com sua pele de seda. Passei a noite me banhando ao luar esperando sua chegada. Abri a janela, peito ao vento, olhando o horizonte, esperando você abrir a porta e me lascar um beijo de arrancar a garganta.
Me embriaguei na esperança de que no gosto do vinho meus olhos pudessem desenhar o seu chegar. Mas você não chegou.
Continuei procurando por musicas que não me façam pensar. Por hora, bastam-me aquelas que ensinam a amar.
Voei só de ver as luzes dos postes cobrindo o chão negro do asfalto da cidade. Entre homens e zumbis, procurei seu rosto em vão.
Senti o cheiro do alecrim grudando em mim, o sabor do vinho desenhando sua face.

Quando finalmente estavas à minha frente já nao podia sentir. E meu coração parou.