terça-feira, 19 de novembro de 2013

Olhos negros

A navalha corta a seda
Corta a carne
o desejo
o sangue
A separação
O cordão
O umbigo
A morte
A vida pulsante
Dos vermes
Nas feridas
Nas veias
Os olhos negros
O medo
A chuva incessante
A tolice 
A mulher
O seio da mulher
A intolerante
A faca entre os seios
O pedido
A alma entre os dedos
O perdido
Que nunca se acha
Não se revela
Solidão
Pudor
Dor
Companheiros eternos
A arma na boca
a boca e os dentes
As cáries
A língua ferina
O que não deve ser dito
Exposto
Explorado
Machucado
A medida exata das divagações
o cálculo
Frio
Metódico
A verdade mentirosa dos teus lábios
Escorrendo como meu sangue 
Jorra
Mata
Corta a pele
Revela a alma.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Não me representa!

Não te dei meu sangue pra servir de capacho pra tua hipocrisia. Não te permiti me prender nessa cela cheia de ódio. Não te dei meus olhos para que os direcionasse àquilo que você deseja ver.
Não te dei meus jovens, nossos filhos, maridos, amigas, não te dei meu corpo pra ser seu delito.
Não entreguei meus dias pra tua mais valia, não te dei minha voz para que você escolha em qual lado devo gritar.
Não te dei minhas mãos, não te entreguei meus passos.
Não me calei ante a exploração.
Não te permiti violentar minha dignidade todos os dias, minha felicidade não está à venda para um monte de banqueiros com dentes de lobo. Não te dei as mãos para que me cortasse o pulso.
Não te dei permissão de me jogar somente migalhas que da mesa caem, não te dei meu amor para ver preso na sua convenção egoísta, não te entreguei meus sonhos para vender a crédito.
Não me calei quando você nos matou, não me calei quando nos escravizou, não me calei quando nos aprisionou e torturou.
Nunca me calei e minha voz ecoou por todo o universo porque sou o som em movimento, a harmonia da justiça que não pára de voar.
Não precisei da tua esmola cínica, da tua maldita regalia que não me adiantou em nada.
Não preciso da tua casa aos pedaços, não preciso da isolação que você me impõe, nem das doenças que você cria somente para me corroer.
Não me calei quando levaram meu anjo e me deixaram suas penas como pistas pelo caminho.
Não dormi quando você me via quieta, não descansei quando me achavam defunto, não deixei de sonhar acordada.
Não permiti que me colocasse cordas ou algemas, não aceitei paus de arara, não vou aceitar sua munição especialmente confeccionada.
Não permiti que me escondesse meu amor, nem que o trouxesse aos pedaços.
Em todos os momentos de injustiça, gritei. Nos momentos de dor, chorei. Quando senti desespero, segui.
Não parei, não olhei pra trás, não deixei ninguém para trás.
Estou lado a lado e mãos dadas com Dora, Douglas e Amarildos. Estou de mãos dadas com as mães de maio e de todos os meses do ano, e com os pais, e tios, e primos, e irmãos.
Não permiti a injustiça, não aceitei e não aceito.
Não te dei procuração pra matar meus sonhos.
Não me representa
Não me importa se seu coronel se arranhou.
Meus irmãos morrem todos os dias
E todos os dias eu berro
E vou continuar a gritar enquanto necessário for.

Enterre suas injustiças. Minha luta é maior que minha dor.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Visões noturnas

Eu  não deixaria de ter essa visões mesmo quando fechasse os olhos. Na multidão, faces e sentimentos omissos e aclamados.
A vida de quem bebe para esquecer e a indiferença de quem bebe nas taças.
O medo do caminhante, a solidão das aparências e a certeza da conveniência de ser vazio.
O amor platônico, o ódio recíproco, a vontade reprimida.
Todos os sentimentos em todas as faces, e em cada uma das faces a vida se esvaindo, sentindo a areia do tempo correr entre as rugas.
Poderia dormir mil anos e ainda veria seus rostos de medo e dor, de incertezas sólidas e carências vividas.
Ainda assim desejaria seus olhos e seu desejo sobre mim. De tudo o que vi apenas guardei aquele olhar perdido, que nem sei se projetava minha imagem ou a parede.
E, voltando para os sentimentos, temos o Platão numa taça, embriagando-se da indiferença que o sentimento cultiva.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sozinha

Solidão é igual ratazana, que se esgueira no esgoto da alma esperando a hora de sair. Se sai, não adianta querer se opor a ela: ela te põe medo no mesmo momento em que te mostra os caninos. Mas se você não tem medo, ela é como uma brisa em dia quente, alivia.

Não é bom andar somente com ela, porque duma feita só ela mete um bocado de medo. Como medo de morrer sem segurar a mão de alguém - se eu tiver que partir quero apertar antes a mão suave de quem me ama. Ainda que seja somente o amor da enfermeira, de um cuidador ou de um estranho.
Mas não ter ela ali, pra de vez em quando fugir consigo, é coisa triste. É enfastiado andar rodeado de gente, o tempo inteiro, barulho, sem ouvir a respiração hora ou outra.

Por via das dúvidas, mantenho essa danada ali, no canto. Sei que ela está lá, ela me conhece e me faz companhia.

No final das contas, no fundo só quero que ela não seja protagonista, mas mera coadjuvante nos meus dias.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Esquizofrenia

Nesses dias de poeira cósmica, tudo parece bagunçado. A cabeça gira, as ideias piram. Sonhos confusos, de estrelas que procriam e luas cadentes. Um espaço-tempo sem fim entre a dor e o recomeço do flagelo.
Quantas noites hei de acordar lembrando o que não aconteceu na vã tentativa de descobrir o que será?
Quero uma vida normal, como a de qualquer pessoa fora do normal, porque a felicidade não se enquadra nos padrões.
Espero o bonde passar, puxado pelos mamutes que alimentei das minhas vísceras.
Seria a facilidade de caminhar sentindo as pedras no meio dos dedos e entre a carne fraca um desafio para alcançar o céu ou um atalho para o inferno?
Entre príncipes e princesas, escolho meu bruxo favorito para uma fantasia sádica.
Acendo as velas com os próprios dedos, afio a navalha na ponta da língua.
Uso meias coloridas e prefiro abandonar as roupas íntimas. Me entrego sem pensar, vou fundo no precipício aproveitando a brisa enquanto busco o chão.
Me curvo ante a plateia excitada, uivos prazerosos, medos enrustidos e desejos mornos.
Sobre minhas costas os porcos ciscam o resto do jantar de ontem (que mesmo comi?) e lambem minhas costas. De cada lambida um filete de groselha enche minha taça.
E nos devaneios, esquizofrenia desaguada, busco o desapego da realidade insólita.
Me acho nos labirintos da vida, me perdendo por ter medo de querer a saída.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Porque nos teus olhos encontrei esperança
Esse brilho castanho que me faz sorrir.
Esse quê de dia nublado-quase-azulado.
Só não sei porque há o mar...
O mar da minha ansiedade
Agitado, destemperado
Que insiste em lançar ondas sobre meu sossego
Quieto, de canto, sozinho.
E tudo isso no teu olhar.
Castanho, desconfiado.

Olhar que me tens venerado.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

úlcera.

O vento, a alma.
Será o vento uma alma, a vida um sopro?
Corro, cara escancarada contra o vento
Rindo quando deveria chorar, pranteando meus risos.
Vivo nua, despudorada de mim mesma.
Sentindo a carne cortante das palavras não ditas
O ardido violeta das memórias mentidas
Como se fosse uma criança a cair em cada esquina
Levantando, só pra cair de novo.
Me equilibrando na ponta dos pés
À beira do precipício, kamikaze.
Paixão pura, fé cheia de medos.
Porque o medo não abandona quem tem vontade.
Punho levantado, passos firmes, e vacilantes.
Filme dos meus momentos errantes.
Pulsantes.
Vibrantes.
A suave pele que cortada sangra
O escarlate vivo do amor sentido.
Quantos dedos para apontar
O coração ferido.
Flutuando entre a esperança e a quase-vida
O vento me mantém
O sopro da vida.
O medo, o medo.
Um simples sopro para aliviar a úlcera.