Que todo sentimento contrário exista.
Ela passeava, como num dia qualquer. Ele também.
As bolsas, os livros, a vontade de mundo, tudo isso ela trazia a tiracolo.
Ele caminhava com desejos só dele, um braço enorme de abraçar o universo e umas mãos boas de carinho.
Caminhavam neste mundo, separados pelo destino, unidos pelo universo, numa valsa vai-e-vem interminável. Ela entrava no coletivo, ele acabava de descer. Ela pedia pra viagem, ele queria comer no restaurante, sem pressa. Ela pedia passagem, ele nem levantava a cabeça.
E iam assim mesmo, sem caso ou descaso, somente ali, no mesmo espaço, sem conhecerem-se. O mesmo trajeto, os mesmos lugares, e nunca foi tão fácil estar perto-longe.
Ela passeava como num dia qualquer. Ele também.
Quando de repente, assim, sem avisar, um ônibus passou pela cabeça dela.
E aquela história de viva como se não houvesse amanhã doeu no peito dele.
... de onde vim e por onde andei, aceita o que te dou. Um muito e tudo é nada, algo além do que restou.
terça-feira, 5 de março de 2013
sábado, 2 de março de 2013
Estrela
Permita-me uma analogia injusta
De um ponto de vista singular
Daqui vejo as estrelas
Embora elas não me vejam
Sinto o brilho bailar em meus olhos
E a escuridão se propagar
Então parece
Que o que se ofusca à minha frente
É menor que a luz que me guia.
É um olhar só meu
Dos olhos teus.
De um ponto de vista singular
Daqui vejo as estrelas
Embora elas não me vejam
Sinto o brilho bailar em meus olhos
E a escuridão se propagar
Então parece
Que o que se ofusca à minha frente
É menor que a luz que me guia.
É um olhar só meu
Dos olhos teus.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Sem título e rementente
Já escreveu alguma coisa pensando "será que tal pessoa vai ler"? Já se pegou num momento de inexorável solidão, em que tudo parece um grande abismo, em que nada parece valer tanto a pena e você se pega pensando se "tal pessoa vai ler"?
Da forma mais desimportante possível, daquele jeito que deveria ser o menos pretensioso, você se apega a milhões de bytes e k-bytes que te separam de milhões e milhões de pessoas e se põe a pensar num único ser elementar que provavelmente dorme neste momento o sono dos justos.
Daí parei pra ponderar nos motivos do que pensava Platão, abaixei o volume da TV, parei. Dez minutos olhando para o monitor pensando se a tal pessoa vai ler. Cena romântica. Acaba o filme.
Acaba o pensamento, não acaba o sentimento. Mas o tempo é remédio que cura (e não cura). Por mais que hoje pareça que não acaba, uma hora acaba-se por esquecer qualquer coisa lá que tinha, do que falávamos?
Ah sim. De k-bytes. E de pessoas que vão ler.
E sim, quem sabe você.
Da forma mais desimportante possível, daquele jeito que deveria ser o menos pretensioso, você se apega a milhões de bytes e k-bytes que te separam de milhões e milhões de pessoas e se põe a pensar num único ser elementar que provavelmente dorme neste momento o sono dos justos.
Daí parei pra ponderar nos motivos do que pensava Platão, abaixei o volume da TV, parei. Dez minutos olhando para o monitor pensando se a tal pessoa vai ler. Cena romântica. Acaba o filme.
Acaba o pensamento, não acaba o sentimento. Mas o tempo é remédio que cura (e não cura). Por mais que hoje pareça que não acaba, uma hora acaba-se por esquecer qualquer coisa lá que tinha, do que falávamos?
Ah sim. De k-bytes. E de pessoas que vão ler.
E sim, quem sabe você.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Fim de ano
Feliz mundo novo velho de sempre diferente igual a qualquer
outro.
Que nossa pele fique verde de encantamento, que possamos
acreditar em fadas e dormir abraçados em toalhas.
Que nossos dias virem noites e as noites virem dias, assim,
um atrás do outro, todos os dias.
Que de vez em quando a gente acredite num eclipse catastrófico
só pra ter frio na barriga.
Que no meio do frio na barriga, eu possa apertar suas mãos juntinho
do meu peito e dizer que te amo.
Que os beijos sejam doces como mel e azedos como limão para não
enjoar. No meio disso haja muita tequila e samba pra dançar.
Que a chuva molhe, que o sol esquente e que a lua esconda,
nem sempre nessa ordem, nem sempre nesses pares.
Que possamos amar e odiar, sentir o sangue pulsar ao mesmo
tempo que sentimos que a vida vai. Sim,
ela vai, e nesse meio tempo, precisamos tentar.
Quero cair. Quero cair, me levantar, acreditar, chorar, rir,
correr, tudo o que se pode. Nesse mundo velho tanta coisa há que desperdiçar
uma chance para qualquer coisa não é aceitável.
Desejo que morram também. Morram os preconceitos, a fome e a
miséria causada pela mesquinhez. E que morra a mesquinhez, e que quebre a
bolsa.
Quebre a bolsa de Nova York, Tókio, Xangai e quebre a Louis
Vitão. Quebrem todas essas merdinhas que não nos trazem nadinha de bom.
Que cresça a Reforma Agrária e se desenvolva como gente
grande. Que possamos plantar e ver crescer, caminhar juntos, costurar. Um sonho
estilo John Lennon.
Que seja tudo isso e muito mais. Que seja saúde, que seja
amor, que sejam memórias.
Que sejam obstáculos para que possamos ter vitorias.
sábado, 24 de novembro de 2012
13.12.2012
Alguns dizem que o mundo vai acabar em 21.12.2012. Eu não compartilho dessa ideia.
Na minha cabeça pequena e limitada, eu estarei comemorando um novo nascer no dia 13. E dia 21 será apenas mais um dia de alegria.
Sou testemunha da luta empreendida por uma mulher forte, que desde o primeiro dia de seu diagnóstico disse que venceria a guerra contra a enfermidade que, por fim, descobriu que se instalara em seu pulmão, fígado e intestino.
Seu exemplo de determinação, de não baixar a cabeça ante a dificuldade. Seu discurso firme de que iria se curar dessa coisa que ela tinha.
Sua fé, e também, porque não, suas dúvidas.
Mas acima de tudo, seu amor pela vida e pelos filhos.
Eu sei que vai passar, mas desde o momento em que soube da data agendada, não consigo me concentrar em outras coisas.
Acho que deve ser semelhante à ansiedade de uma mãe que está prestes a conceber.
Vai passar, e vamos vencer. Distribuiremos sorrisos doces, pequenas lembranças de nossa vitória.
Fé é o que nos sustenta, amor nos alimenta.
Na minha cabeça pequena e limitada, eu estarei comemorando um novo nascer no dia 13. E dia 21 será apenas mais um dia de alegria.
Sou testemunha da luta empreendida por uma mulher forte, que desde o primeiro dia de seu diagnóstico disse que venceria a guerra contra a enfermidade que, por fim, descobriu que se instalara em seu pulmão, fígado e intestino.
Seu exemplo de determinação, de não baixar a cabeça ante a dificuldade. Seu discurso firme de que iria se curar dessa coisa que ela tinha.
Sua fé, e também, porque não, suas dúvidas.
Mas acima de tudo, seu amor pela vida e pelos filhos.
Eu sei que vai passar, mas desde o momento em que soube da data agendada, não consigo me concentrar em outras coisas.
Acho que deve ser semelhante à ansiedade de uma mãe que está prestes a conceber.
Vai passar, e vamos vencer. Distribuiremos sorrisos doces, pequenas lembranças de nossa vitória.
Fé é o que nos sustenta, amor nos alimenta.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
“Lindos olhos os seus”
Meus dedos são anatomicamente desenhados para tremer.
Ensaiei varias frases prontas para o encontro, como “hoje está um lindo dia de
sol”, ou “que tal uma coca-cola?” ou ainda, “lindos olhos os seus”.
E me pegava imaginando seus lábios, seu sorriso e seu corpo.
Imaginava seu calor, caricias e mais tudo o que pessoas enamoradas sonham.
Imaginei meia luz e luz inteira, suspiros e calores que subiam dos pés à
cabeça. Mas a única coisa que precisava me atentar, naquele momento, era uma única
frase.
Passaram-se horas, e dias, e meses. Nenhuma frase se fez
crescente em meu coração, mas todos os sentimentos do mundo povoaram meu
pensamento. Eu era uma verdadeira nação ambulante de periclitantes sentidos.
Voava a fadinha apaixonada, e o anão emburrado. Teve espaço para o unicórnio do
ciúmes e para a princesa da saudade. Seres imaginários que representavam tão bem,
na minha mente, todos os sentimentos que eu tinha. E até seres que não existiam,
como um com cabeça de fada, corpo de anão, pés de unicórnio e mãos de princesa.
E voltava a imaginar a frase, sentindo os dedos trêmulos e a
respiração ofegante. Naquela mesma situação, imaginando o inimaginável, e
sonhando o improvável. Tudo por conta de uma frase não dita, ou que, se dita, não
seria ouvida.
E me recolhi ao meu mundo, agora despovoado, porque
desprovido de sentimentos, apegada a uma única frase, sem a coragem de pronunciá-la,
sem vontade de manifestá-la. Imaginei um telegrama, talvez, comprovação de conteúdo
e entrega.
“Lindos olhos os seus”.
sábado, 3 de novembro de 2012
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