Meus dedos são anatomicamente desenhados para tremer.
Ensaiei varias frases prontas para o encontro, como “hoje está um lindo dia de
sol”, ou “que tal uma coca-cola?” ou ainda, “lindos olhos os seus”.
E me pegava imaginando seus lábios, seu sorriso e seu corpo.
Imaginava seu calor, caricias e mais tudo o que pessoas enamoradas sonham.
Imaginei meia luz e luz inteira, suspiros e calores que subiam dos pés à
cabeça. Mas a única coisa que precisava me atentar, naquele momento, era uma única
frase.
Passaram-se horas, e dias, e meses. Nenhuma frase se fez
crescente em meu coração, mas todos os sentimentos do mundo povoaram meu
pensamento. Eu era uma verdadeira nação ambulante de periclitantes sentidos.
Voava a fadinha apaixonada, e o anão emburrado. Teve espaço para o unicórnio do
ciúmes e para a princesa da saudade. Seres imaginários que representavam tão bem,
na minha mente, todos os sentimentos que eu tinha. E até seres que não existiam,
como um com cabeça de fada, corpo de anão, pés de unicórnio e mãos de princesa.
E voltava a imaginar a frase, sentindo os dedos trêmulos e a
respiração ofegante. Naquela mesma situação, imaginando o inimaginável, e
sonhando o improvável. Tudo por conta de uma frase não dita, ou que, se dita, não
seria ouvida.
E me recolhi ao meu mundo, agora despovoado, porque
desprovido de sentimentos, apegada a uma única frase, sem a coragem de pronunciá-la,
sem vontade de manifestá-la. Imaginei um telegrama, talvez, comprovação de conteúdo
e entrega.
“Lindos olhos os seus”.
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