quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sem título e rementente

Já escreveu alguma coisa pensando "será que tal pessoa vai ler"? Já se pegou num momento de inexorável solidão, em que tudo parece um grande abismo, em que nada parece valer tanto a pena e você se pega pensando se "tal pessoa vai ler"?
Da forma mais desimportante possível, daquele jeito que deveria ser o menos pretensioso, você se apega a milhões de bytes e k-bytes que te separam de milhões e milhões de pessoas e se põe a pensar num único ser elementar que provavelmente dorme neste momento o sono dos justos.
Daí parei pra ponderar nos motivos do que pensava Platão, abaixei o volume da TV, parei. Dez minutos olhando para o monitor pensando se a tal pessoa vai ler. Cena romântica. Acaba o filme.
Acaba o pensamento, não acaba o sentimento. Mas o tempo é remédio que cura (e não cura). Por mais que hoje pareça que não acaba, uma hora acaba-se por esquecer qualquer coisa lá que tinha, do que falávamos?
Ah sim. De k-bytes. E de pessoas que vão ler.
E sim, quem sabe você.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim de ano


Feliz mundo novo velho de sempre diferente igual a qualquer outro.
Que nossa pele fique verde de encantamento, que possamos acreditar em fadas e dormir abraçados em toalhas.
Que nossos dias virem noites e as noites virem dias, assim, um atrás do outro, todos os dias.
Que de vez em quando a gente acredite num eclipse catastrófico só pra ter frio na barriga.
Que no meio do frio na barriga, eu possa apertar suas mãos juntinho do meu peito e dizer que te amo.
Que os beijos sejam doces como mel e azedos como limão para não enjoar. No meio disso haja muita tequila e samba pra dançar.
Que a chuva molhe, que o sol esquente e que a lua esconda, nem sempre nessa ordem, nem sempre nesses pares.
Que possamos amar e odiar, sentir o sangue pulsar ao mesmo tempo que sentimos que a vida vai.  Sim, ela vai, e nesse meio tempo, precisamos tentar.
Quero cair. Quero cair, me levantar, acreditar, chorar, rir, correr, tudo o que se pode. Nesse mundo velho tanta coisa há que desperdiçar uma chance para qualquer coisa não é aceitável.
Desejo que morram também. Morram os preconceitos, a fome e a miséria causada pela mesquinhez. E que morra a mesquinhez, e que quebre a bolsa.
Quebre a bolsa de Nova York, Tókio, Xangai e quebre a Louis Vitão. Quebrem todas essas merdinhas que não nos trazem nadinha de bom.
Que cresça a Reforma Agrária e se desenvolva como gente grande. Que possamos plantar e ver crescer, caminhar juntos, costurar. Um sonho estilo John Lennon.
Que seja tudo isso e muito mais. Que seja saúde, que seja amor, que sejam memórias.
Que sejam obstáculos para que possamos ter vitorias.

sábado, 24 de novembro de 2012

13.12.2012

Alguns dizem que o mundo vai acabar em 21.12.2012. Eu não compartilho dessa ideia.
Na minha cabeça pequena e limitada, eu estarei comemorando um novo nascer no dia 13. E dia 21 será apenas mais um dia de alegria.
Sou testemunha da luta empreendida por uma mulher forte, que desde o primeiro dia de seu diagnóstico disse que venceria a guerra contra a enfermidade que, por fim, descobriu que se instalara em seu pulmão, fígado e intestino.
Seu exemplo de determinação, de não baixar a cabeça ante a dificuldade. Seu discurso firme de que iria se curar dessa coisa que ela tinha.
Sua fé, e também, porque não, suas dúvidas.
Mas acima de tudo, seu amor pela vida e pelos filhos.
Eu sei que vai passar, mas desde o momento em que soube da data agendada, não consigo me concentrar em outras coisas.
Acho que deve ser semelhante à ansiedade de uma mãe que está prestes a conceber.
Vai passar, e vamos vencer. Distribuiremos sorrisos doces, pequenas lembranças de nossa vitória.
Fé é o que nos sustenta, amor nos alimenta.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

“Lindos olhos os seus”


Meus dedos são anatomicamente desenhados para tremer. Ensaiei varias frases prontas para o encontro, como “hoje está um lindo dia de sol”, ou “que tal uma coca-cola?” ou ainda, “lindos olhos os seus”.
E me pegava imaginando seus lábios, seu sorriso e seu corpo. Imaginava seu calor, caricias e mais tudo o que pessoas enamoradas sonham. Imaginei meia luz e luz inteira, suspiros e calores que subiam dos pés à cabeça. Mas a única coisa que precisava me atentar, naquele momento, era uma única frase.
Passaram-se horas, e dias, e meses. Nenhuma frase se fez crescente em meu coração, mas todos os sentimentos do mundo povoaram meu pensamento. Eu era uma verdadeira nação ambulante de periclitantes sentidos. Voava a fadinha apaixonada, e o anão emburrado. Teve espaço para o unicórnio do ciúmes e para a princesa da saudade. Seres imaginários que representavam tão bem, na minha mente, todos os sentimentos que eu tinha. E até seres que não existiam, como um com cabeça de fada, corpo de anão, pés de unicórnio e mãos de princesa.
E voltava a imaginar a frase, sentindo os dedos trêmulos e a respiração ofegante. Naquela mesma situação, imaginando o inimaginável, e sonhando o improvável. Tudo por conta de uma frase não dita, ou que, se dita, não seria ouvida.
E me recolhi ao meu mundo, agora despovoado, porque desprovido de sentimentos, apegada a uma única frase, sem a coragem de pronunciá-la, sem vontade de manifestá-la. Imaginei um telegrama, talvez, comprovação de conteúdo e entrega.
“Lindos olhos os seus”.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Se...


Se tivesse que dizer algo inusitado, diria que te amo. Diria que te amo por um segundo, não um século, pois temos muito amor e muitos amores pra viver, e a vida, enfim, é uma só.
No outro segundo diria que te odeio, e se transformando seu rosto em outro, diria que te amo novamente. Mas não seria o novamente, porque você já seria o outro que em um momento odiei e passo agora a amar.
E seria assim, sem pressa, um circulo em que todos os dias eu conhecesse e a um pedaço de ti, que me fizesse render. Como um peixe que desiste de se debater à rede, como o animal que cede ao abate, me faria morta para viver nos teus braços.
E todos os dias no amor-ódio-amor admirar as mascaras que a vida nos coloca, assim, de mansinho, como quem não quer nada.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fruta


Toda fruta merece ser chupada. E é do profundo de teus sulcos que a natureza revela sua doçura e o arrebatamento do teu amargor. Pois nem só de doces se vive o sentimento, pois não?
Há que ter um bocadinho amargo à boca, para saudardes bem a presença de toda a doçura que há. E melhor é que se inicie amargo, para dar ao paladar o alivio de tua presença doce.
Se assim não o for, a amargura que fica tarda a ser esquecida, finca-se como tatuagem não apenas na língua, mas na própria alma. E nos molda de forma irremediável.
Mas eis que a doçura também nos faz alguma coisa. Todos os sabores, ora aqui, ora acolá, dão uma pequena batidinha nos flancos de si e formam curvas, retas, desníveis que nos moldam. Há vezes em que rimos, outras em que choramos, mas, no final, todas as historias dão um bom acabamento no que somos.
Cada um sabe a dor e a beleza de ser o que é, não?